Cidade de Deus é um filme que evidencia preciosismos de virtuose em muitas passagens narrativas.
O personagem Cabeleira (o ator Johathan Haagensen) e seus dois companheiros de pequena contravenção - Alicate (o ator Jefechander Suplino) e Marreco (o ator Renato de Souza) - formavam o “Trio Ternura”. Eles roubavam caminhões de gás, para distribuir o produto do assalto entre os moradores do bairro, por exemplo. Fugitivos da polícia, no início do filme, ficam escondidos em árvore muito alta. Uma grande gota de orvalho escorre de uma folha, sugerindo citação visual enviesada da clássica canção “A felicidade”, de Tom Jobim e Vinícius de Morais:
“A felicidade é como a gota
De orvalho numa pétala de flor:
Brilha tranqüila,
Depois, de leve, oscila
E cai como uma lágrima de amor”.
Essa brilhante canção, com uma preciosa melodia, desdobrada em harmonias e metáforas verbais igualmente requintadas, integrou a trilha sonora de Orfeu negro (também conhecido como Orfeu de carnaval), de Marcel Camus (1959), e nos lembra uma tradição temática do cinema brasileiro ou feito no Brasil por estrangeiros: imagens da favela e da pobreza urbana. Embora o filme desse diretor francês seja uma produção franco-ítalo-brasileira, a repercussão internacional da obra e o peso de sua excepcional trilha sonora (além das magistrais peças de Jobim e Morais, outras canções igualmente magníficas de Luiz Bonfá e Antonio Maria) findaram associando-o, entre nós e no exterior, às visões da favela carioca no cinema.
Grandes marcos do cinema brasileiro, desde antes e também depois de Orfeu negro, abordaram esse universo social: Rio 40 graus, de Nelson Pereira dos Santos (1955), Cinco vezes favela, de Marcos Borges, Marcos Farias, Carlos Diegues, Joaquim Pedro de Andrade e Leon Hirzsman (1962), e A grande cidade, de Diegues (1966).
Cidade de Deus, ambientado num conjunto residencial degradado, construído pelo governo do Estado da Guanabara, durante a gestão do governador e líder civil na implantação da ditadura de 1964 Carlos Lacerda (1960/1965), para instalar favelados, retoma essa memória cinematográfica, mesmo que o faça sob o signo da diferença – outro tempo, outra pobreza, outro cinema. Fernando Meirelles e Kátia Lund não são cinema de autor nem Cinema Novo, não querem evocar projetos de esquerda comuns àqueles antecessores temáticos, mas são cinema brasileiro, não tem como escapar dessas lembranças.
Os personagens Dadinho (depois rebatizado como Zé Pequeno; os atores Douglas Silva, na infância, e Leandro Firmino da Hora, jovem adulto) e Bené (os atores Michel de Souza Gomes, quando criança, e Phellippe Haagensen, na idade adulta) participam de um ritual de fechamento de corpo num cemitério, sob a proteção de Exu Caveira. É uma presença palpável de divindade num filme cujo título é Cidade de Deus - presença associada à morte, todavia. A cena parece anunciar que essa é uma cidade sem Deus no campo da vida (noutras passagens, há breves menções à Igreja – aparentemente, neo-pentecostal -; Alicate se refugia na religião, depois daquela fuga, como forma de se manter vivo; pessoas rezam rapidamente em situações de morte; mas Deus não mora na cidade que tem Seu Nome). Ou faz lembrar que a divindade figura na vida apenas ao redor da morte: ao invés de luz divina, ela apresenta o negror noturno do cemitério sem além – ou o além se reduz à morte.
O baile de despedida do já adulto Bené, braço direito de Zé Pequeno, apoteose de sua capacidade de conciliação (presença de diferentes grupos: sambistas, crentes, funk, o traficante Sandro Cenoura – o ator Mateus Nachtergaele -, que é um rival hostilizado por Zé Pequeno) e de seu compromisso com a felicidade (satisfação erótica associada ao amor por Angélica – papel da atriz Alice Braga -, retirada dos negócios de tráfico para viver com ela num sítio, plantando a maconha que fumaria), se encerra com o assassinato de Bené, por engano – o assassino tentava matar Zé Pequeno -, evidenciando a impossibilidade do amor naquela cidade, como já ocorrera com Cabeleira e sua companheira Berenice (a atriz Roberta Rodrigues), no início do filme, e se repetiria em seguida com o sedutor Mané Galinha (o ator Seu Jorge) e sua namorada (a atriz Sabrina Rosa). O amor fraternal de Zé Pequeno por Bené, único na vida do primeiro (a voz narrativa de Buscapé – na infância, o ator Luís Otávio, e quando adulto, o ator Alexandre Rodrigues - informa que Zé Pequeno não conseguia seduzir amorosamente ninguém, fazia sexo pagando ou forçando), se encerra com aquela morte. A festa é menos que um intervalo na violência cotidiana, violência presente em seu decorrer e que culminou na morte do diplomático Bené.
A galinha encurralada para ser amarrada, degolada e cozida, na abertura e no final do filme, se desdobra na figura de Buscapé, também encurralado pelos dois grupos de traficantes em confronto naquele desfecho, e pela chegada posterior da polícia para supervisionar o monte de carne humana jovem apodrecendo ao sol. Os cadáveres de Zé Pequeno e Mané Galinha, em primeiro plano, lembram a onipresença da morte; o resto é esperar pelos novos mortos, inclusive os que produzem e vêem as mortes dos outros.
A galinha teve o nome reiterado no trágico personagem Mané Galinha, e apareceu já no início do filme, em planos do prólogo que apresentam uma lâmina sendo afiada, o animal solto, o animal preso, jatos de sangue: falar da Cidade de Deus é como contar vida e morte desse bicho, seu caminho para a panela, tão paralelo aos trajetos humanos ali apresentados.
Esses preciosismos narrativos de Cidade de Deus colocam o fazer cinematográfico – e, particularmente, sua face técnica – em primeiro plano no filme, multipremiado, inclusive, na categoria “montagem”. Ao mesmo tempo, seu ponto de partida textual (o romance homônimo de Paulo Lins, escrito com o apoio de uma bolsa da Fundação Vitae e o incentivo do importante crítico literário Roberto Schwarz, editado pela prestigiada Companhia das Letras), reitera uma pretensão realista: narrar as coisas tal como aconteceram (“Baseado em Histórias reais”, conforme legenda final reiterada na versão para cinema). A direção de Meirelles sempre retorna ao viés subjetivo da narração e ao domínio de recursos técnicos tão ostensivos quanto os que são usados na publicidade televisiva.
Isso não é demérito, evidentemente: Stanley Kubrick declarou ter aproveitado técnicos de publicidade para realizar os efeitos especiais do magistral 2001 – Uma odisséia no espaço (1968).
Tudo sai, aparentemente, dos olhos e da voz de Buscapé, falando de si mesmo e dos outros, vendo-se e vendo esses conhecidos. Por um lado, a voz subjetiva justifica evidentes silêncios do filme sobre aspectos de seu universo temático: o aparelho de estado aparece apenas nas figuras dos policiais de rua corruptos (o tráfico de drogas depende também do tráfico de armas, que conta com a benevolência desses supostos agentes da lei), como se outros níveis absolutamente assépticos desse grupo e de fora dele não se beneficiassem daquele quadro; a cidade da classe média branca é uma espécie de vizinha arrumada, talvez vitimada pela delinqüência dos pretos bandidos (engraxates que roubam, por exemplo) de subúrbio, mas dotada de certa segurança. Buscapé, com medo dos traficantes, encontra refúgio no apartamento e no leito de uma jornalista; tem pouco branco e mestiço claro no cenário humano de Cidade de Deus. Mas era assim que o adolescente Buscapé via as coisas, com seus limites de idade, classe social e cultura...
Por outro lado, o acontecer é jogado para fora do filme, como se este não fosse, em si mesmo, um acontecimento, como se ele apenas tratasse de ser fiel aos fatos que lhe eram externos. Quando assistimos ao filme, todavia, desfrutamos de seu acontecer material, resultante exatamente daquele fazer técnico e virtuosístico. O filme é um acontecimento muito palpável na sociedade onde ele foi concebido, realizado e, depois, recebido.
É na corda bamba dessas pretensões a verismo e subjetividade alicerçada em virtuosismos de linguagem que Cidade de Deus nos apresenta o trajeto de Buscapé, menino e adolescente pobre ficando adulto, rumo a sua redenção de classe média: não se tornar traficante nem policial, ser um narrador verbi-visual (a linguagem do filme e o trabalho de fotógrafo na Imprensa), chegar vivo à idade adulta, incluindo a iniciação sexual, definir-se numa profissão legal, malgrado as grandes barreiras para formação em seu meio. Mané Galinha, por exemplo, concluiu o ensino médio e não conseguiu ir além, sequer quando prestou o serviço militar (não passou de cabo), trabalhava como humilde cobrador de ônibus antes de ingressar na bandidagem, diante do estupro sofrido por sua namorada e do assassinato de um irmão. Sua habilidade como atirador, no Exército, de nada lhe serviu profissionalmente (depois, foi passaporte para o crime, caminho para a morte), assim como a excelência de Cabeleira no futebol apenas lhe granjeou admiração entre iguais, sem perspectivas para a sobrevivência.
A cidade de classe média, além de espaço de ordem e certa segurança, também abriga os clientes dos traficantes. São consumidores brancos, detentores de um poder de consumo suficiente para trocarem mercadorias caras (óculos, câmeras fotográficas) pelas drogas que desejam. Existem espaços e momentos de convívio entre essas pessoas e os moradores da Cidade de Deus, inclusive o envolvimento amoroso representado pela relação entre Bené e Angélica. O ideal de ser classe média inclui a visão de insatisfações nesse universo, uma outra falta de perspectiva – mais confortável e bonita, todavia. A jornalista que encerra a virgindade sexual de Buscapé o convida para compartilhar maconha, mas num nível bem tranqüilo, que seu padrão de vida permite, na segurança de sua casa.
A cidade mais visível, em Cidade de Deus, é aquela da pobreza sem rumo, como se a única solução imaginável viesse da raríssima mescla entre talento, perseverança e sorte, que Buscapé representa tão claramente.
De cadáver em cadáver, o filme parece evocar Augusto dos Anjos, nos “Versos íntimos”:
“Acostuma-te à lama que te espera!”
Buscapé se redime, não vira policial nem bandido, é possível que seu talento commo fotógrafo, o apoio de solidários veteranos competentes e o estágio no jornal o transformem num profissional, integrado à cidade de classe média branca mais ou menos bem resolvida.
Mas os colegas da Cidade de Deus continuam lá, à espera da morte, como numa involuntária lembrança do verso de Bertolt Brecht, do poema “O abrigo noturno”, em tradução de Paulo César Souza:
“O mundo não vai mudar com isso”.
Metáfora bem-acabada da ética neo-liberal, avant la lettre?
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Cidade de Deus (Brasil). 2002. Direção: Fernando Meirelles. Co-direção: Kátia Lund. Roteiro: Bráulio Mantovani, a partir de romance homônimo, de Paulo Lins. Montagem: Daniel Rezende. Produção: Andréa Barata Ribeiro e Maurício Andrade Ramos. Roteiro: Bráulio Mantovani. Produção: O2 Filmes, VideoFilmes, Andrea Barata Ribeiro e Mauricio Andrade Ramos. Co-Produtores: Walter Salles, Donald K. Ranvaud, Daniel Filho, Hank Levine, Marc Beauchamps, Vincent Maraval e Juliette Renaud. Produção executiva: Elisa Tolomelli. Co-produção Globo Filmes, Lumière, Wild Bunch e Bel Berlinck. Música: Antônio Pinto e Ed Côrtes. Fotografia: César Charlone. Direção de Arte: Tulé Peake. Edição: Daniel Rezende. Oficina de atores: Nós do Cinema e Guti Fraga. Preparação de atores: Fátima Toledo. Elenco: Matheus Nachtergaele (Sandro Cenoura), Seu Jorge (Mané Galinha), Alexandre Rodrigues (Buscapé), Leandro Firmino da Hora (Zé Pequeno), Roberta Rodrigues (Berenice), Phellipe Haagensen (Bené), Jonathan Haagensen (Cabeleira), Douglas Silva (Dadinho), Gero Camilo (Paraíba), Jefechander Suplino (Alicate), Alice Braga (Angélica), Emerson Gomes (Barbantinho), Édson Oliveira (Barbantinho - adulto), Luis Otávio (Buscapé - criança), Maurício Marques (Cabeção), Charles Paraventi (Tio Sam), Darlan Cunha (Filé com Fritas), Graziella Moretto, Micael Borges e Babú Santana (Grande). 135 minutos. Colorido.
Leituras complementares.
NAGIB, Lúcia. “Fernando Meirelles”, in: O cinema da retomada. São Paulo: Editora 34, 2002, pp 301/302.
LINS, Paulo. Cidade de Deus. São Paulo: Companhia das Letras, 1997.
ZALUAR, Alba. Condomínio do diabo. Rio de Janeiro: Revan/UFRJ, 1994.
* Marcos Silva é Historiador e Professor na FFLCH/USP.